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Sempre é tempo de Brian Eno

terça-feira, janeiro 11th, 2011

Eno quando ainda tinha um monte de cabelo

Como eu fui boazinha em 2010, o Papai Noel me trouxe um presente bem legal no Natal: uma caixa luxuosa com CDs, vinis e uma gravura assinada por ninguém menos do que Brian Eno.

A caixa foi lançada por um dos selos que mais tem contribuído com novidades de altíssimo nível no universo da música eletrônica, o Warp Records, a casa de artistas como Aphex Twin, LFO, Autechre, Plaid e outros que trazem em comum um forte apreço pelo lado mais experimental e maluco dos beats eletrônicos.

Na caixa há apenas composições novas, que Brian Eno gravou com Jon Hopkins e Leo Abrahams, em seu estúdio em Londres. Mas o disco, que leva o nome de Small Craft On A Milk Sea, é só uma desculpa para falar da vida e obra de um dos artistas mais interessantes da música pop. Sim, porque ele foi muito além das batidas eletrônicas, e como!

Assim, sem pensar muito, dá pra dizer que tem pelo menos um dedo de Eno do glam rock ao sucesso do U2, passando, claro, pela “música de elevador”, nome genérico da ambient music, uma de suas marcas registradas. Mas, sério, tem muito mais! Da trilha da série de TV Miami Vice até a produção de alguns dos álbuns mais importantes de David Bowie há Brian Eno na assinatura.

Nascido em 1948 numa região rural da Inglaterra, Eno já chegou com pinta de gente importante: batizado Brian Peter George St. John Le Baptiste de la Salle Eno, ele logo se viu obrigado a encurtar o nome. Influenciado pelo som de um dos pioneiros da música minimalista, o americano Steve Reich, antes dos 20 anos Eno já havia participado de algumas orquestras.

Em 1971, Brian Eno passou a integrar o grupo que mais dava o que falar no momento, o Roxy Music, com suas roupas insanas e rock sofisticado. Era a vez do glam rock, e Brian Eno, devidamente vestido de mulher, passava a dividir as atenções com outro Bryan, o Ferry, com seus ternos elegantes e jeito de dandy.

Depois de gravar dois LPs com a banda (Roxy Music, de 1972, e For Your Pleasure, de 1973), Brian Eno deixou para trás fãs ensandecidos, vestidos, batom e boás para mergulhar com tudo na música eletrônica.

Em 1975, depois de lançar sua obra-prima da música minimalista, Another Green World, um acidente de carro deixou Eno de cama por vários meses, levando-o à criação de uma de suas marcas mais famosas, a ambient music. Eno pensou que a música, afinal, deveria ter as mesmas propriedades da luz ou das cores e se espalhar pelo ambiente sem atrapalhar o equilíbrio das coisas. Desta premissa surgiu o disco Discreet Music, o primeiro de um volume de dez trabalhos experimentais lançados por seu próprio selo, Obscure.

Já firme na ambient music, vieram dois trabalhos que ajudaram a espalhar a fama do gênero: em 1977, lançou Music for Films, uma coleção de fragmentos criados como trilha sonora de filmes imaginários e, em 1978, Music for Airports, um disco concebido para acalmar passageiros de avião apavorados.

Ao mesmo tempo em que se tornava o papa da ambient, Eno se enfiava de cabeça no que havia de mais vanguardista na música eletrônica naquele momento, o krautrock, gênero de música libertário, muito dominado por ruídos, improvisação e instrumentos eletrônicos, que dominou o underground da Alemanha da virada dos anos 60 até a década de 70. Desse balaio onde o que valia era renegar a cultura anglo-americana, onde só o radicalismo importava, nasceram grupos como o Neu! e, muito mais popular, o Kraftwerk.

Em 1977 e 78, Eno gravou dois discos com o grupo Kluster (Cluster & Eno e After The Heat). Outro produto com forte influência do período alemão são os três discos de David Bowie produzidos por Eno, para muita gente os melhores da carreira do camaleão até hoje: Low (77), Heroes (também de 77) e Lodger (de 79, que traz a curiosa faixa DJ, feita em parceria com Eno, uma visionária tiração de sarro do culto ao DJ – “Eu sou DJ/Eu sou o que toco/Tenho seguidores”.

Ainda em 78, Eno produziu a pérola da new wave Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!, estreia do grupo Devo, que trazia pitadas de sintetizadores, por sugestão do produtor. O mix de guitarras e batidas eletrônicas entrou para a história e ajudou a definir o som do Devo para sempre.

Ainda nem chegamos aos anos 80, e o cara já tem história que daria para rechear filmes e livros. Dá mesmo pra achar alguns vídeos sobre ele na internet, mas eu recomendaria um bem recente, conduzido pelo próprio Brian Eno, que foi ao ar ano passado pelo canal inglês BBC Four. O nome é Arena – Brian Eno, Another Green World. É só vasculhar a internet que dá pra assistir ao filme inteiro, dividido em três partes.

Eno azeitou o som do U2, isso ninguém pode negar pois há esta foto pra comprovar

Vendo o documentário dá para entender como sua mão foi importante no trabalho de uma certa banda irlandesa, que em 1984 cruzaria seu caminho. Naquele ano, Eno produziu o disco The Unforgettable Fire, o primeiro de vários (The Joshua Tree, Achtung Baby, Zooropa, All That You Can”t Leave Behind e No Line On The Horizon) que ele produziu para o U2.

Você leu bastante coisa sobre Brian Eno, mas posso dizer que não é nem metade do que este multifacetado inglês já aprontou. Ainda tem trilha de games, trabalhos com artistas como Laurie Anderson, Talking Heads e Coldplay, seu lado artista plástico e até um jogo de cartas de baralho (Oblique Strategies), que ele inventou nos anos 70 e agora está disponível para iPhone etc. Seja através da caixa da Warp que acaba de sair (que custa US$ 99 mais a taxa de envio) ou por qualquer outra desculpa, é sempre tempo de conhecer o genial Brian Eno.
Texto originalmente publicado no Estadão de 08/01/11

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Dubstep é o som que faz tremer as entranhas. Conheça

quarta-feira, novembro 3rd, 2010

No Brasil, quem puxa o carro do dubstep é Bruno Belluomini, da festa Tranquera

A história nos ensina que novos movimentos musicais costumam sair das profundezas do underground e ganhar notoriedade apenas depois de serem processados para agradar a uma audiência mais acostumada a padrões estéticos que habitam os perímetros da normalidade. Foi assim com a disco music, com o punk, com a new wave e com o techno, gêneros que nasceram extremamente ligados a um estilo de vida e que explodiram como tendência depois de ganhar versões mais “lights”, pensadas para um plateia genérica.

Se há hoje um novo gênero que pode se candidatar à vaga de novidade capaz de vir a explodir para um público maior, o dubstep parece ser o candidato perfeito. E “explodir” é realmente o verbo mais adequado, porque, quando se fala em dubstep, logo vem à cabeça a pressão e os graves deste gênero musical tão jovenzinho, mas repleto de seguidores apaixonados.

Nascido no sul de Londres no começo dos anos 2000, o dubstep mistura elementos do dub (pioneiro estilo de música feito em estúdio, criado na Jamaica, uma espécie de reggae mais lento, com ênfase no baixo e na bateria) com house tipicamente inglesa (UK garage), geralmente mais acelerada e com influência de hip hop.

Para quem ouve pela primeira vez, a impressão é de um som sinistro, que pode fazer cócegas na caixa torácica, dependendo da proximidade que o ouvinte esteja da caixa de som. Assim como o drum”n”bass, o dubstep é quebrado, não linear, e tem entre as principais características o fato de ser um som “gordo”, para ser ouvido num sistema de som potente e com graves proeminentes.

Em 2010, o dubstep ecoou bem além das festinhas de gueto, que ajudaram a construir sua reputação de som de meninos marrentos. Até DJs mais comerciais, como o francês David Guetta, já colocaram pinceladas do gênero em seus sets, sem contar em seus remixes – fazer uma versão de dubstep passou a ser praticamente uma obrigação para qualquer produtor de música eletrônica mais antenado.

Britney Spears no gueto. Vou arriscar um jeito rápido de explicar o dubstep para quem nunca ouviu: é como ouvir uma faixa de drum”n”bass numa rotação mais lenta, arrastada, com mais efeitos sonoros, como barulhinhos de videogame e ringtones – a exemplo do grime, gênero inglês que tem origem no mesmo contexto, só que com um jeitão mais hip hop de ser.

Um dos maiores responsáveis por lançar holofotes sobre essa cena antes restrita à periferia foi o inglês Burial e seu segundo disco, Untrue, lançado em 2007. Da capa à última faixa, Untrue é um álbum denso, carregado de novidade, porém com pinta de ter sido feito por um cara com uns 100 anos de experiência só no ramo de calibragem de áudio. Um divisor de águas.

Além do destaque em festivais internacionais, o dubstep já tem produtores que conseguem travar um diálogo amigável entre o underground e o mainstream. Talvez o mais articulado nesse ofício seja o inglês Rusko, que foi convocado pela montanha-russa do pop Britney Spears para trabalhar em seu próximo álbum. Um dos artistas sensação do festival americano Lollapalooza deste ano, Rusko também já trabalhou com Rihanna, Santogold e com o rapper T.I.

Outro cara que entraria em qualquer top três de artistas mais legais do dubstep é o londrino Ollie Jones, mais conhecido como Skream. Um dos maiores divulgadores do gênero, esse garoto de pouco mais de 20 anos lançou em agosto deste ano seu segundo álbum, Outside The Box, para muita gente um dos melhores álbuns de 2010.

Outros nomes que não podem faltar na sua lista de iniciação ao dubstep são Benga (praticamente um dos criadores do estilo), Kode9 (pioneiro, já veio ao Brasil), Magnetic Man (projeto que reúne os produtores Benga e Artwork), Zomby (que sempre aparece usando uma máscara), o americano Bassnectar e Digital Mystikz (dupla formada pelos produtores Mala e Coki).

Tranquera. No Brasil, o gênero tem uma festa que traduz o espírito do dubstep para os trópicos, a Tranquera, organizada pelo DJ e produtor paulistano Bruno Belluomini. Desde a primeira vez que ouvi falar do Bruno, lembro dele agitando as bandeiras do grime e do dubstep. Por isso, fui saber dele a quantas anda o dubstep e qual a sua representatividade no Brasil:

O que te atraiu no dubstep a ponto de você ter se tornado o grande entusiasta do gênero no Brasil?

Bruno Belluomini – A atitude. O punk rock hardcore foi minha escola por muito tempo e vejo bastante semelhança entre essa sonoridade e o dubstep: o espírito “do it yourself” (faça você mesmo) e a vontade visceral de fazer música viva, explosiva, principalmente. Em essência, o dubstep é um gênero que carrega uma energia muito intensa. O grave é tão forte na pista que faz as entranhas tremerem como gelatina.

Você acha que dá para desenvolver uma cena local no Brasil?

BB – Faço a minha parte e espero que o resultado do meu trabalho esteja colaborando para isso. Mantenho a festa Tranquera no Vegas e agora estou levando-a para outras cidades. Já rolaram edições bem legais em Porto Alegre e Belo Horizonte. Além disso, faço minhas próprias produções e procuro colaborar com artistas daqui e de fora do país. Esse intercâmbio é muito importante.

Se um ET chegasse hoje à Terra e perguntasse o que é esse tal de dubstep, como você explicaria para ele?

BB – Levaria ele ao porão do Vegas para sentir a pressão do grave. Para saber o que é o dubstep, só experimentando de verdade mesmo.

Quais são seus discos essenciais para entender o gênero?

BB – O Midnight Request Line, do Skream, o Knowledge, do Toasty, e o Anti War Dub, do Digital Mystikz. Essa trinca é matadora.

Quem são hoje os grandes nomes do dubstep na sua opinião?

BB – Skream e Benga. Eles são os principais.

Texto originalmente publicado no Estadão de 30 de outubro de 2010

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A volta dos dinossauros da música eletrônica

segunda-feira, junho 14th, 2010

Os homens-robôs do Kraftwerk sempre andam arrumadinhos

Para relacionar meia dúzia de dinossauros do rock não precisa conhecer muito de música. Qualquer desavisado sabe assoviar pelo menos um hit de Rolling Stones, Pink Floyd, Paul McCartney, AC/DC ou Bruce Springsteen.

A música eletrônica também tem a sua turma de dinossauros, artistas que conquistaram rugas no rosto em busca da batida perfeita. Impossível começar essa lista sem falar dos alemães do Kraftwerk. Eles são o equivalente dos Beatles para o rock. Na estrada desde 1970, o Kraftwerk (“usina de força”, em alemão) é certamente o maior responsável pela popularização da música eletrônica, trabalho que os quatro “operários” do grupo sempre levaram muito a sério. De seu misterioso estúdio Kling Klang, em Dusseldorf, os alemães mandaram para o globo exatamente o que estavam produzindo: música feita por máquinas. Ou, como dizia o autoexplicativo disco de 1978 Man Machine: máquinas de carne e osso.

Hoje, com apenas um dos integrantes da formação original (Ralph Hütter), o Kraftwerk continua fazendo turnês (em 2009 tocaram no Brasil, abrindo para o Radiohead), mas raramente lança novas músicas. Em dezembro do ano passado, a EMI botou no mercado (claro que não no Brasil) um pacote luxuoso com sete discos remasterizados dos homens robôs.

Trocando em miúdos, para quem está chegando agora na música eletrônica e acha que Lady Gaga inventou os timbres eletrônicos que filtram sua voz, um toque: ouça Kraftwerk o quanto antes! Um bom começo para mergulhar na história do grupo é assistir ao documentário Kraftwerk and the Electronic Revolution, lançado em 2008, disponibilizado na íntegra no YouTube (em 18 partes!).

Se em 2010 o Kraftwerk parece ter ido tirar uma de suas habituais sestas – eles se retiram de cena para recarregar as baterias de vez em quando – outros dinossauros da eletrônica ressurgiram com novos trabalhos.

A dupla inglesa Chemical Brothers acaba de lançar seu sétimo álbum de estúdio, Further. Parece que foi ontem, mas lá se vão 15 anos desde que Tom Rowlands e Ed Simons juntaram psicodelia e graves potentes a serviço da pista de dança, criando as bases para o nascimento de um dos estilos mais populares da música eletrônica dos anos 90, o big beat. Further, o novo disco, traz o Chemical Brothers fazendo uma espécie de autoplágio, utilizando-se da fórmula que eles mesmos criaram. Por exemplo, uma das novas músicas, Another World, soa como uma versão estendida de Star Guitar, hit de 2002.

Ouvindo o disco melhor dá pra achar referências a várias fases do próprio Chemical Brothers. Prova de que a música eletrônica, a exemplo do rock, também já tem idade e relevância suficientes para manter-se viva bebendo nas próprias referências. Dinossauro, sim. Mas com estilo próprio.

O Underworld, responsável por um dos maiores hits que a música eletrônica já produziu até hoje, Born Slippy (aquela da trilha do filme Trainspotting), também mostra em 2010 que está em ótima forma, apesar dos mais de 20 anos de estrada. Em maio último, eles lançaram o novo single, Scribble, com download gratuito pela internet (para baixar é só entrar no www.underworldlive.com). A música é um delicioso aperitivo do 8º disco do Underworld, Barking, que será lançado em setembro. Dinossauro, sim. Velho, jamais.

Formada na Inglaterra em 1987 pelos irmãos Phil e Paul Hartnoll, a dupla Orbital circulou em palcos dos mais respeitados do mundo todo na década de 90 – esteve até no Brasil, em 99, onde tocou no saudoso Free Jazz Festival. O estouro veio com o single Chime, de 1989, música que motivou a reunião dos irmãos Harnoll no ano passado para a celebração dos 20 anos do hit. No próximo dia 20, o Orbital lança o primeiro material inédito em seis anos e até o final do verão europeu está com a agenda lotada de shows. Em abril, se apresentaram como headliners do festival americano Coachella e no próximo dia 27 são atração aguardadíssima do mega Glastonburry, na Inglaterra. Dinossauro, sim. Ultrapassado, não.

Leftfield. Mesmo sem lançar álbum novo, outro pterodáctilo dos beats eletrônicos que aterrissa na cena em 2010 é o duo Leftfield. Formado pelo DJ e músico Paul Daley e pelo produtor Neil Barnes, o Leftfield ganhou público e crítica no final dos anos 80/começo dos 90 ao fundir house com dub e reggae. Depois de 10 anos parado, o Leftfield volta representado por um dos integrantes da dupla original, Neil Barnes, e lotado de datas em festivais importantes, como o Benicassim, que acontece em 18 de julho, na Espanha, e o Creamfields, em agosto, na Inglaterra. Com agenda cheia, o Leftfield mostra que prestígio ainda conta neste mundo de modismos passageiros.

CLAUDIA ASSEF É AUTORA DO LIVRO E DO BLOG TODO DJ JÁ SAMBOU E TAMBÉM EDITORA EXECUTIVA DO PORTAL VÍRGULA

O texto foi publicado originalmente no Estadão de 12/06/2010

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