Sexy, provocante, moderna, dona de um gogó invejável, esta foi Donna Summer

O mundou perdeu um pouco de seu brilho hoje com o falecimento da cantora Donna Summer, maior diva das pistas de dança de todos os tempos. A notícia começou a circular agora à tarde internet afora. Normalmente esses óbitos de famosos são uma informação a mais em nossas timelines, mas juro que quando li sobre Donna Summer meu coração quase saiu pela boca. Não pode ser!

Segundo informações copy-paste da vida, ela morreu vítima de câncer no pulmão e, segundo o site TMZ, acreditava ter desenvolvido a doença depois de inalar partículas tóxicas durante os ataques terroristas de 11 de setembro, em Nova York.

Especulações à parte, sua morte com certeza deixará milhares, milhões eu diria, de fãs tristes. LaDonna Adrian Gaines foi uma mulher à frente de seu tempo. Encarou a missão de quebrar paradigmas. Musicalmente, teve peito para levar às massas as pirações eletrônicas do italiano Giorgio Moroder e abriu caminho para o depois viria a ser chamado de música eletrônica. Se você gosta de house, techno etc. faça o seu minuto de silêncio pessoal a Summer.

Numa atitude à la Gainsbourg, Donna Summer levou o sexo às boates. Tremendamente sexy no visual, ela gravou a proibidona “Love To Love You Baby”, com sussurros e gemidos gravados ao longo de seus 17 minutos de música, isso em 1975. A BBB chegou a contar 23 orgasmos na música. Lógico que a faixa foi censurada em diversos países!

Donna Summer também atacou de atriz, num filme que eu, por coincidência, comprei há pouquíssimo tempo pela Amazon. Em “Thank God It’s Friday”, de 78, ela é uma cantora em início de carreira que estreia cantando “Last Dance”, na discoteca fictícia Zoo. O filme é uma bobagem, mas vale a pena pela performance ingênua da cantora.

Seu legado para a música é imenso e daria pra resumir dizendo o seguinte. Se hoje um ET descesse à Terra e te perguntasse como os seres humanos dançam, você se sairia bem se tocasse “I Feel Love” pra ele. Clássico de todos os tempos, eficiente de batizados às boates mais modernas, é uma frase que eu carrego tatuada no meu braço.

Donna Summer, eu nunca te conheci mas posso dizer sinceramente que vou sentir saudades. Hoje é um dia triste.

Quem sou

Talvez a melhor coisa do Sónar seja ver gente interessada em música na pista

Com o Parque Anhembi extremamente bem utilizado, o Sónar São Paulo atraiu cerca de 30 mil pessoas somando os públicos de sexta (11/5) e sábado (12/5), mostrando que nem só atrás de mega estrelas da música pop vive o público da cidade.

Criado em Barcelona em 1994, o Sónar cresceu muito e hoje chega a atrair cerca de 80 mil pessoas em sua cidade natal, mas tanto lá quanto nas outras cidades em que acontece (Londres, Tóquio, São Paulo etc), a ideia é manter o foco naquilo que a direção do evento chama de “música avançada”, ou seja, música eletrônica, hip hop, indie e música experimental de qualidade.

Mesmo com o cancelamento de sua principal artista, a cantora Björk, a edição paulistana do festival não chegou a sentir uma baixa forte de público, já que o esperado volume de 15 a 20 mil pessoas por noite chegou perto de se concretizar.

Se acertou na escolha do lugar (é incrível como São Paulo é carente de bons lugares para eventos grandes e médios), nem sempre o line-up funcionou na prática.

It's more fun to compute, mas cadê a animação? foto: Divulgação/Image.net

Tudo bem que ninguém esperava ver fãs com pôsteres na mão se descabelando nem sutiãs jogados ao palco do show do quarteto alemão Kraftwerk, grande atração da sexta-feira. Mas até para fãs da velha-guarda como eu – um dos primeiros discos da minha coleção é “Computer World” (1981), comprado no Mappin, com os dizeres na capa “contém o tema da novela Brilhante” – o show foi tedioso.

Acredito que boa parte do público que lotou pela metade a gigantesca arena do palco SónarClub também tenha um enorme carinho pelo grupo de robôs que entregou a música eletrônica moderna ao mundo. E ainda tinha o fato de o show ser em 3D, uma firula a mais para despertar a curiosidade do público. E mais: o Kraftwerk vinha de oito shows lotados no MoMA de Nova York, única testemunha até então das apresentações em três dimensões dos alemães antes do show no Brasil.

O problema é que a enorme arena não segurou a onda de ficar assistindo a um show frio daqueles, usando óclinhos 3D descartáveis. As projeções também não ajudaram, eram aquelas clássicas paradonas do Kraft, só que com um efeitinho 3D que até o gibi da Mônica já usou.

Claro que foi uma jogada de mestre trazer o Kraftwerk para cobrir a ausência da estrela Björk. Mesmo o show da islandesa, bem cabeçudo em vários momentos, tenho minhas dúvidas se funcionaria num espaço tão grande, com pé direito tão alto, mas enfim…

A verdade é que, fora alguns mais quimicamente empolgados, o público logo dispersou do Kraftwerk. Culpar o grupo dizendo que eles sempre tocaram assim é sacanagem. Quem estava no Free Jazz Festival (me escolhe!) de 1998 vai poder dizer o quanto o Kraftwerk pode ser quente. Mas vamos adiante que o papo aqui é o Sónar como um todo.

Não existe amor em SP, mas existe Criolo!

Quem saiu do Kraftwerk tinha a opção de ver um dos artistas mais bombados do Brasil (não no “Faustão”, neam), o rapper Criolo, que fez o público cantar junto hits como “Não Existe Amor em SP” e uma versão de “Cálice”, do Chico Buarque. Ele não podia não estar no Sónar.
Mãe de duas bebês que sou, perdi dois shows que queria muito ver e que ouvi dizer terem sido muito bons: o do americano James Pants e o DJ set do inglês James Blake – este tocou supercedo, às 21h30.

Foi difícil conseguir entrar pra ver o show do Little Dragon, mas valeu

Deu tempo de ver o grupo sueco Little Dragon no “Pudim” (foi muito legal ver novamente o auditório Elis Regina servindo ao público da música underground). Bem bacana.

No palcão Club a noite ainda teria Chromeo, que eu achei barulhento demais, e o inglês Skream, que me deu medo pela bipolaridade, ia de bem legal a pavoroso em segundos. O palco fechou com uma apresentação eficiente do brasileiro Gui Boratto.

Oi, Skream, tocar Nirvana até eu, né!

Talvez eu tenha perdido a melhor apresentação da noite – pelo menos foi o que eu ouvi nos corredores -, a do americano misterioso Doom, que tocou no mesmo horário do Kraftwerk e Criolo.
Sexta-feira fui pra casa com a sensação de que tinha ido a uma puta festa legal, só que com uns momentos meio malas no som.

SABADÃO UNDERGROUND

O Four Tet é inglês mas, como disse uma amiga, parece capixaba!

Sábado já prometia um leque de atrações bem mais interessante. Por causa da função com as filhotas, perdi coisas que eu queria muito ter visto, como o live da dupla Tiger & Woods e a apresentação do alemão Alva Noto com o japonês Ryuichi Sakamoto no “Pudim”. Menos mal que já tinha visto o Sakamoto com o Pan Sonic na abertura do Sónar 2004 em Barcelona.

Dor no coração de também não conseguir ver Flying Lotus e Munchi, mas preguiça total de assistir o show da dupla Justice. Depois de um soninho reparador, chegamos direto para a apresentação do inglês Four Tet e, uau, que tapa bom na orelha!

Experimental, mas dançante. Cabeçudo, mas acessível. Extremamente bonito, mas nunca fácil. Como é bom esse Kieran Hebden! No começo da apresentação, o SónarVillage estava vazio a ponto de se conseguir assistir bem da grade, mas, lá pela metade do show, o som do Four Tet já havia atraído uma multidão, que dançava, batia palmas e até gritava nomes de músicas, como “She Moves She”, hit do inglês. Ah, o Four Tet já havia tocado no Sónar São Paulo de 2004.

O mais legal de estar ali era olhar para o lado e ver gente realmente interessada na música, dançando com vontade, de olhos fechados. Nada de meninos desfilando com baby champanhe na mão nem meninas dando cabeladas fatais no ar. Definitivamente não foi um sabadão à noite dos mais típicos.

Seth Troxler: bom gosto e animação pra tocar

Conforme as horas iam passando, senti aquela quase tristeza de estar perdendo coisas boas enquanto assistia a outras extremamente interessantes, como o set do americano Seth Troxler, simplesmente incrível. Por causa dele, não fui ver os alemães do Modeselektor (que, dizem, tocou uma “technera”), o espanhol John Talabot nem o veterano inglês Squarepusher, que segundo vários relatos fez um showzaço no “Pudim”.
Terminei a noite vendo de longe a lenda Jeff Mills fazendo um set totalmente anos 90, minimalista e nem aí pra tendências. Com os pés cansados e um almoço de Dia das Mães a poucas horas dali, resolvi tirar o plugue da tomada antes que fosse tarde demais. Obrigada, Sónar, e até 2013.

Quem sou

A dupla Donna Summer e Giorgio Moroder criou o som eletrônico na disco

Hoje o tema é disco music, essa coroa enxuta que está na casa dos 40 anos (e, como toda coroa, não tem idade muito bem definida) e continua ditando moda. Não fosse pela disco, certamente esta coluna, focada principalmente na música eletrônica e no universo dos DJs, não teria razão de existir. Pois foi a partir desse movimento musical e estético que se criaram conceitos que depois seriam usados para formatar a música eletrônica e o hip hop.

Para quem gosta de dance music (o termo costuma ser usado como sinônimo de música eletrônica farofa, mas quero dizer música pra dançar), conhecer a disco music é obrigatório. Do mesmo jeito que antes de saber fazer uma conta de divisão você precisa aprender a subtrair, não dá pra entrar de cabeça na música eletrônica sem passar pelos anos dourados da disco. Ou sempre ficará faltando uma peça.

Nascida na porção gay, negra e latina de Nova York no final dos anos 60, a disco saltou do underground para todos os cantos do mundo, envelopada de diversas formas, na segunda metade da década de 70. Talvez seu ícone mais conhecido até hoje seja Tony Manero, personagem de John Travolta em “Os Embalos de Sábado”, filme que, em 2012, completa 35 anos. Lançado no final de 1977, o longa virou marco da geração que, pela primeira vez na história, levava o hedonismo para a pista de dança e fazia da discoteca a sua igreja. Retratava na telona o nascimento da cultura de clubes, ou seja, do hábito de sair de casa para dançar, um dos vícios mundanos mais deliciosos já criados pelo ser humano.

Antes que venham à sua mente os hinos mais manjados da disco music, sons que viraram trilha sonora de casamento e povoam compilações trash vendidas em supermercados, é bom que se diga que foi durante esse período que se produziram músicas das mais sofisticadas da história da música pop.

Se Nova York foi o palco de experimentações de DJs pioneiros como David Mancuso e Nicky Siano e suas noitadas exclusivas (The Loft e The Gallery, respectivamente), na Filadélfia foi que se produziram os grandes temas dessa geração. A cidade entrou para a história como a principal produtora de som de qualidade, o tal “Philly Sound”, um som classudo, sofisticado, produzido por orquestras compostas por músicos extraordinários, como a MFSB e a Salsoul Orchestra.

 

A música que foi criada para as pistas suarentas dos anos 70 está mais presente do que nunca no nosso zeitgeist. Não apenas no trabalho de DJs que carregam há anos a bandeira da disco music, como faz muito bem o norueguês Prins Thomas, por exemplo, mas também no som de artistas muito mais pop. De Scissor Sisters a Lady Gaga, passando por David Guetta e Madonna, todos vão buscar na disco music alguma coisa para reciclar.

DISCO MUSIC NA BBC

Para entender melhor como se formou esse movimento, o canal inglês BBC-4 nos presenteou com um documentário simplesmente imperdível. “The Joy of Disco” foi ao ar no Reino Unido no começo deste mês (está disponível no Youtube, dividido em quatro partes) e resume, em seus 60 minutos, como foram fecundadas as sementes dessa cena, focando no período de 1969 a 1979.

Lá estão imagens de arquivo de arrepiar, como as cenas de bacanas dançando no lendário Studio 54, o clube de Steve Rubell que botou em prática pela primeira vez a política de selecionar na porta quem tinha o direito de entrar ou não na discoteca. Também há imagens raras dos frequentadores do Gallery, explicando que ali “todo mundo pode tudo e todo mundo é igual”.

Mas a maior riqueza do documentário da BBC para mim são as entrevistas. Estão lá caras que podem ser considerados os verdadeiros pais da discomusic, como os já citados DJs Nicky Siano e David Mancuso, além do italiano Giorgio Moroder, figura importantíssima na criação da sonoridade mais eletrônica do movimento.

Foi ele quem introduziu sintetizadores no som de Donna Summer, transformando a música “I Feel Love” no primeiro hino eletrônico do mundo – a música funciona bem em qualquer pista de dança até hoje, da festa do peão de Barretos até o clube mais descolado de Berlim. Usando as cordas do “som da Filadélfia” e adicionando batidas e linhas de baixo eletrônicas ao som da diva Donna Summer, Moroder criou uma versão mais europeia da disco music.

“The Joy of Disco” também escancara a malícia por trás de hinos que o Planeta inteiro já dançou achando que eram músicas bobinhas, como o übberhit gay “YMCA”, do Village People. Dificilmente as milhares (ou seriam milhões?) de pessoas que já dançaram essa manjada coreografia com os bracinhos formando letras do alfabeto tenham se dado conta de que a música fala, basicamente, da pegação gay no banheiro da ACM de Nova York.

Outro momento emocionante é quando o baterista Earl Young, da banda MFSB, mostra, tocando, como criou a batida clássica da disco music. Um bumbo aqui, uma caixa ali, um prato acolá e, voilá, fez-se a cadência que mexeu e ainda mexe até o mais enferrujado dos esqueletos.
Como o documentário é inglês, também ficamos sabendo como foi a evolução da disco music na terra da Rainha. Incríveis as cenas de arquivo mostrando jovens fazendo os passos super elaborados da Northern Soul, uma cena musical que assolou o norte da Inglaterra no final dos anos 60, início dos 70, e que esquentou a galera para a chegada da disco music por lá.

Está em “The Joy of Disco” também a improvável história da atriz pornô que virou rainha das pistas, Andrea True (falecida em 2011), que entrou para a história com a literal “More, More, More”. Claro que resumir 10 anos de história em uma hora de documentário não é das tarefas mais fáceis. Muita coisa ficou de fora. Mas se eu pudesse indicar uma maneira de entender a disco music com o melhor custo-benefício de tempo da história recente, seria indicando este “The Joy of Disco”. Vale cada minuto.

The Joy of Disco, parte 1 de 4

 

The Joy of Disco, parte 2 de 4

 

The Joy of Disco, parte 3 de 4

 

The Joy of Disco, parte 4 de 4

 

Este texto foi publicado originalmente no Caderno 2 + Música, do jornal O Estado de S. Paulo, em 17 de março de 2012

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